Arquivos do tópico ‘Geral’

Quando a solidariedade se esconde atrás do egoísmo

Casa alagada em Itajaí.

Casa alagada em Itajaí. Foto: AP Photo/Ricardo Moraes

Estávamos recentemente com um grupo de amigos e tivemos nossa atenção voltada para a notícia na TV que mais uma vez relatava o drama ora vivido pelas famílias que foram afetadas pelas enchentes que arrasaram algumas cidades do estado de Santa Catarina. O repórter, ao final da notícia, conclamava a todos os brasileiros a fazerem doações de toda espécie, com prioridade para água, agasalhos, alimentos não perecíveis, fraldas descartáveis, etc… O povo daquelas localidades estava arrasado pelas enormes perdas, inclusive de vidas humanas.

Ao término da notícia, os amigos se entreolharam com um misto de surpresa e espanto por tamanha calamidade e um deles falou que quem deveria ajudar e arcar com esses prejuízos era o governo, e que ele (a pessoa) era quem esstava precisando de ajuda.

O tom me pareceu meio sério, meio jocoso, mas extremamente inadequado para drama tão devastador. Fiquei pensando na tendência que temos de dizer não ao sofrimento do outro, ou de minimizá-lo e só acreditar que ele existe quando as desgraças acontecem conosco: Uma bala perdida, um sequestro, uma catástrofe ambiental, uma dissolução familiar, um carro roubado, a descoberta de um filho drogadicto, a morte de um familiar de maneira trágica, etc…

Desgraça em Itajaí, Santa Catarina

Desgraça em Itajaí. Foto: James Tavares/Secom-SC

Nessas ocasiões ouvimos sempre depoimentos com as mesmas palavras: “Eu pensava que só acontecesse com os outros, mas que nunca aconteceria comigo”. E quando acontece sentimos naquele momento o pêso do sofrimento que nos abate de maneira contundente, certeira e fatal. Nosso mundo desaba e chegamos a perguntar: “Por que eu?, por que comigo?” Parecíamos tão fortes, tão valentes, tão imunes a tudo. Poderia acontecer com qualquer pessoa, menos conosco.

Eu penso que a não valorização do sofrimento do outro pode decorrer por não nos atermos às nossas próprias vulnerabilidades, por não reconhecermos tambem a nossa própria fragilidade diante da vida. Alguns de nós chegam ao limite de, ao verem a dor e o sofrimento do outro, fecharem a porta da solidariedade, negarem uma porção de si a quem necessita, seja muitas vezes apenas ouvindo aquele necessitado em seus momentos difíceis, fazendo-nos por isso, áridos, alheios, distantes.

É uma pena, mas parece regra, que na maioria das vezes só aprendemos quando sofremos e só valorizamos o sofrimento do outro quando já passamos pelo mesmo caminho.

É como eu tenho percebido. E você, o que me diz?

 

E você, o que me diz?

Espírito inquieto, mente buliçosa. Do tempo em que mais se ouvia do que podia falar. As perguntas calavam sem respostas. Os dramas do viver humano, os sofrimentos, as mágoas, as revoltas, as dores me inquietavam e faziam pensar; mas só pensava e tentava evitar esses caminhos, dentro da medida do possivel.

Mais tarde descobri que poderia entender mais o porquê desses dramas e quis conhecer mais sobre os segredos da mente. Aquilo me fascinava! E eu busquei em cada revista, em cada livro, em cada reportagem. Onde pudesse ler sobre esses assuntos, lá estava eu embevecida. E não podia ser de outra maneira: estudei medicina e escolhi como área de atuação a Psiquiatria. Sempre foi motivo de alegria quando alguém me perguntava: “Qual é a sua especialidade?” e eu respodia “Psiquiatria”.

Foi um sonho por muito tempo acalentado e decidido com a certeza de que era realmente isso que eu queria fazer por toda a minha vida. E ainda hoje não me vejo em outro lugar ou fazendo qualquer outra coisa:  ajudar o outro, ouvi-lo, ampará-lo, acolhê-lo; mostrar a ele que existe sim outro caminho, que é possível sim, fazer-se feliz!

Há muitos anos desempenho esse mister e a cada dia com forças renovadas e com um desejo maior de fazer melhor. E tenho sido bem sucedida! Posso realmente me considerar realizada como profissional, sobretudo porque sempre procurei  dar o que de melhor possuía.

E agora já pensando em me afastar do consultório, novamente me inquieto e vejo que ainda posso continuar fazendo mais. E é por isso que estamos aqui, agora  utilizando as novas tecnologias; e aqui estou para debater com vocês os emaranhados da vida humana, as inquietações, os sofrimentos e tambem os caminhos da vitória!

E você, o que me diz?

 
Compartilhe