Arquivo de 5 de fevereiro de 2009

Como sempre, o amor

Em mais um final de dia de trabalho, um paciente angustiado e deprimido após mais uma contenda e término do relacionamento com sua companheira,  relatou-me toda sua historia e, após ouvir-me agora já mais aliviado, levantou-se, agradeceu e despediu-se com a frase: “Espero que dê certo”.

Eu fiquei sozinha, e avaliei por que existem tantos conflitos nos relacionamentos dos casais, com consequente mágoas, dissabores, lágrimas e tanto tempo desperdiçado, tempo esse que bem poderia estar sendo aproveitado para sorver o que de tão gostoso existe em todos os momentos em que se está com  quem se ama ou com quem se escolheu para amar…

Mas, é isso possível acontecer? É possivel dar certo?

O desejo de fazer acontecer tem que ser de ambos ou será que somente um pode realizar o trabalho que deveria ser dos dois? Que estrutura, que elementos, que ingredientes tem que ter esse viajor solitário que deseja ser feliz com o outro, mesmo que o outro  não pense da mesma forma, ou  não tenha chegado a esse entendimento?  Imaturidade, descompasso, sonhos diferentes?

O ingrediente principal é o AMOR, como sempre o amor, tão cantado em prosa, versos e melodias. O amor que todos procuram e que muitas vezes nunca encontram, porque como dizia Vinícius de Moraes:

A vida é a arte do encontro,
embora existam tantos desencontros pela vida.

Cada um dos pares carregando sua historia de vida, a educação recebida, suas cicatrizes familiares e com o agravante que nem todos conseguem manter uma relação saudável consigo mesmo; relação essa tão necessária para qualquer outro relacionamento na vida; pois se não for assim, seremos um fardo para nosso companheiro, pois vamos procurar nele o que deveríamos possuir em nosso íntimo e — fazendo as coisas certas pelos motivos errados — fatalmente lutaremos com a decepção que brota de esperar de alguem o que nós mesmos deveríamos dar-nos.

Somos seres diferentes, logo o desejo de um pode não ser o mesmo desejo do outro. O gosto de um pode não ser o mesmo gosto do outro e aí muitos se perdem quando acreditam que a lei da física: “os
opostos se atraem” é a mesma para os relacionamentos;  e aí podem se afundar num mar de lágrimas, lamentações, amarguras, infelicidade.

Nenhum ser humano mentalmente saudável pode ser feliz quando seu companheiro sofre ou está triste. Amar significa ficar feliz com a felicidiade do outro e empenhar-se nesse processo, pois quanto mais me dou, mais me preencho. Quando cada um se relaciona bem consigo mesmo e tem sua auto-estima bem trabalhada, pode facilmente compartilhar sua vida com outra pessoa, porque é segura, porque acredita no seu valor e na sua capacidade de ser feliz  e de fazer alguem feliz.

‘É, a vida é mesmo assim, uma arte circense, com luzes, ação, som, aplausos, emoções… mas, acima de tudo um equilibrar-se no picadeiro tendo a plena confiança de que o outro não se furtará ao nosso salto mortal. Logo, o amor implica confiança, que só é adquirida com o tempo e com a observância das ações e reações do companheiro para conosco e, especialmente para com os outros.

Assim, no amor como na vida,  não nos cumpre só esperar dar certo, mas fazer dar certo, e isso vale para os dois.

É como eu tenho refletido, mas, e você o que me diz?

 
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