Quando a solidariedade se esconde atrás do egoísmo
Escrito sob Geral em 05/01/2009 19:42 by SoniaEstávamos recentemente com um grupo de amigos e tivemos nossa atenção voltada para a notícia na TV que mais uma vez relatava o drama ora vivido pelas famílias que foram afetadas pelas enchentes que arrasaram algumas cidades do estado de Santa Catarina. O repórter, ao final da notícia, conclamava a todos os brasileiros a fazerem doações de toda espécie, com prioridade para água, agasalhos, alimentos não perecíveis, fraldas descartáveis, etc… O povo daquelas localidades estava arrasado pelas enormes perdas, inclusive de vidas humanas.
Ao término da notícia, os amigos se entreolharam com um misto de surpresa e espanto por tamanha calamidade e um deles falou que quem deveria ajudar e arcar com esses prejuízos era o governo, e que ele (a pessoa) era quem esstava precisando de ajuda.
O tom me pareceu meio sério, meio jocoso, mas extremamente inadequado para drama tão devastador. Fiquei pensando na tendência que temos de dizer não ao sofrimento do outro, ou de minimizá-lo e só acreditar que ele existe quando as desgraças acontecem conosco: Uma bala perdida, um sequestro, uma catástrofe ambiental, uma dissolução familiar, um carro roubado, a descoberta de um filho drogadicto, a morte de um familiar de maneira trágica, etc…
Nessas ocasiões ouvimos sempre depoimentos com as mesmas palavras: “Eu pensava que só acontecesse com os outros, mas que nunca aconteceria comigo”. E quando acontece sentimos naquele momento o pêso do sofrimento que nos abate de maneira contundente, certeira e fatal. Nosso mundo desaba e chegamos a perguntar: “Por que eu?, por que comigo?” Parecíamos tão fortes, tão valentes, tão imunes a tudo. Poderia acontecer com qualquer pessoa, menos conosco.
Eu penso que a não valorização do sofrimento do outro pode decorrer por não nos atermos às nossas próprias vulnerabilidades, por não reconhecermos tambem a nossa própria fragilidade diante da vida. Alguns de nós chegam ao limite de, ao verem a dor e o sofrimento do outro, fecharem a porta da solidariedade, negarem uma porção de si a quem necessita, seja muitas vezes apenas ouvindo aquele necessitado em seus momentos difíceis, fazendo-nos por isso, áridos, alheios, distantes.
É uma pena, mas parece regra, que na maioria das vezes só aprendemos quando sofremos e só valorizamos o sofrimento do outro quando já passamos pelo mesmo caminho.
É como eu tenho percebido. E você, o que me diz?

